Em defesa da filosofia

Autor: TRIBUNA DOS LAGOS,  Data Criação: sexta-feira, 31 de maio de 2019    

ARTIGO DO PROFESSOR PAULO FERNANDO DIEL: Graduado em teologia e estudos sociais. Doutor em teologia pela Johannes Gutemberg Universität, da Alemanha. 
Professore de ciências humanas e sociais da Universidade Tecnológica Federal do Paraná - Câmpus de Dois Vizinhos. 
Membro do Conselho de Ética em Pesquisa com Seres humanos da UTFPR. 

 

A filosofia é a base da vida. É a única ciência que nasceu com o homem. Ninguém vive sem se perguntar sobre sua existência: Por que vivemos? Que sentido existe em viver? Por que amamos? Por que odiamos? Por que nos tornamos o que somos? Por que a felicidade toma distância de nós? Por que o homem tem preferido a mentira (fake news), ao invés de perseguir a verdade? Precisamos apenas de dinheiro, ou para além dele existe formas de viver com menos competitividade, mais justiça, menos stress, mais simplicidade?  Estas perguntas, por si só, justificam a necessidade da filosofia. Por outro lado, a filosofia é a ciência da esperança. Ela alimenta os sonhos dos homens e das mulheres. Sem filosofia a esperança morre. O mundo não acaba onde termina. Depois do fim, tudo pode começar. A filosofia é a ciência do humano, do sentimento, que procura lembrar ao homem aquilo que ele verdadeiramente é. Tudo isso é filosofia. O homem não nasceu para fazer filósofo, ele é filósofo por essência. Ele procura a verdade, e a verdade é a sua essência, a sua alma, diria Sócrates. Com os gregos a filosofia passou da vida para academia, tornou-se ciência para sistematizar todas as grandes questões que embalaram o homem na sua longa marcha evolutiva. Adentrou as escolas, pois até agora acreditamos que não podemos abrir mão de debater sobre aquilo que nos move, o viver, o existir, o cuidado, a responsabilidade, o equilibro, a compaixão etc. Por que atacamos a filosofia? O problema é complexo e exige um alcance profunda da questão. A filosofia sofre um tremendo ataque desde a origem da ciência moderna. Este fenômeno aconteceu porque a burguesia se apropriou da ciência, seduziu-a, promoveu-a e, por fim, escravizou-a. A razão instrumental desenvolveu na ciência o desejo prático de dominar e transformar a natureza. A filosofia não vê o homem separado da natureza, ele é a natureza. A ciência moderna separa o homem da natureza e elimina com isso a reflexão filosófica, destituindo-a de sentido, tornando-a uma alegoria privada de poucos excêntricos confinados em algum canto das universidades. Restaram poucos filósofos, mas a filosofia ainda é uma ameaça. A ciência moderna não suporta a crítica da filosofia. Sem filosofia, a ciência moderna tornou-se cega e perigosa. Ela deu ao homem um poder incrível de criar e de destruir. Por outro lado, a ciência não cumpriu com a sua grande promessa de civilizar e emancipar o homem. A emancipação tornou-se dependência tecnológica e consumistas e a civilidade rui com o excesso de informações, confundindo as pessoas entre si e lhes tirou a possibilidade e liberdade do pensamento crítico, espalhando a insegurança, o medo, o ódio e, consequentemente, a violência. Aqui mora a grande necessidade da filosofia. Nós necessitamos com urgência de uma nova sabedoria. Disse, sabedoria, não inteligência! A grande questão que teremos que responder no futuro próximo e imediato é: o que faremos com o imenso poder que a ciência deu ao homem? Iremos renunciar a nossa condição humana, limitada e frágil? Estamos com a sensação de que aceleramos em demasia o nosso progresso e perdemos o controle sobre a nossa capacidade de construir e destruir. Criamos um monstro incontrolável, queremos pisar no freio mas não sabemos onde ele está. Pior que isso! Não conseguimos mais ligar as pontas dos acontecimentos que nos levam a solução desse drama. Alguns ufanistas acreditam encontrar novas possibilidades em meio ao caos, mas o problema é que a racionalidade pura, sem ética, sem humanidade e sem responsabilidade social e ambiental, produz um modelo econômico e social apocalíptico onde existir e viver torna-se cada vez mais frustrante, dolorido, inseguro e ameaçador. A filosofia desenvolvida com liberdade e maturidade pode nos devolver o equilíbrio necessário. O que mais nos incomoda hoje é que evoluímos cientificamente, economicamente, tecnicamente mas sentimos que nossa liberdade está cada vez mais ameaçada. Epicurio afirmou, “se queres a verdadeira liberdade, deves fazer-te servo da filosofia”. Sem filosofia, iremos perder a consciência daquilo que somos, humanos! A filosofia além de nos dar o senso crítico da nossa existência, tem a reponsabilidade de nos devolver aquilo que de mais precioso nós temos, a nossa humanidade.

 
 
 

TRIBUNA DOS LAGOS
ARTIGOS DIVERSOS, DE ESCRITORES DIVERSOS QUE VEZ OU OUTRA ENCAMINHAM SEUS TEXTOS PARA PUBLICAÇÃO. Participe dessa coluna enviando seus artigos para tribunadoslagos@gmail.com


Dom Pedro I, 219
Bairro das Torres
Dois Vizinhos - PR

(46) 3536-5036
9 8419-5036

Desenvolvido por Grupo Mar Virtual